Acabei de sair do trabalho. Tudo estava aparentemente tranquilo quando cheguei lá. Achei ótimo pq tava de ressaquinha, me sentindo leve...quando me sinto leve isso não é bom. Ok, de repente vou ver um paciente: seu Carlos. Gente boa o rapaz, quer dizer, o vovô. Deu entrada no hospital por causa de uma simples diabetes descompensada. Era viúvo há um ano. Tava meio lelé, gritava, chamava toda mulher que entrava lá de Maria Bonita. E vivia perguntando kd Lampião...Pode? Ficava horas viajando na maionese dele, ele era meio carrancudo, não curtia fisioterapia, "física", como eles chamam nosso procedimento....Puf. Ok, chego eu lá pra ver meu vovô e me deparo com o quadro: Dispnéia importante ( o cara tava com frequencia de 50), respirando com grande dificuldade, um esforço enorme pra continuar ali, já estava meio inconsciente, cianótico ( os pés do cara literalmente roxos), praticamente sem pulso. Pensei: tenho que ser rápida. O cara é um "pepino" em potencial e essa bomba vai pipocar bem no meio do meu plantão...E eu ainda bebum... Ok, retiro o oxímetro de uma paciente que estava bem melhor que seu Carlos ( oximetro serve pra monitorar a saturacao de oxigenio-quantidade de O2 que chega ateh o sangue- e o pulso)e instalo no homem. Consegui ver a saturacao dele? Não, o aparelho não conseguia pegar o pulso de tão fraco que estava. Fiquei com muito, mas muito medo. O hospital não tem sequer uma semi intensiva, que dirá UTI!Pense num suporte de emergência pra dar socorro a alguém?A PM não tem. Tudo o que temos é um mero desfibrilador! Ele tava piorando. Peço pra chamar a plantonista e recebo o recado que a mesma não virá atende-lo pois ele precisa de um acesso venoso( pegar uma veia pra assim dar o medicamento, infundir soro etc...), e ninguém tava conseguindo pegar uma veia do cara, sem o qual ela NADA poderia fazer. mais medo. Contactamos um cirurgião que iria fazer o enorme favor de pegar um acesso venoso central( procedimento que deve ser feito em centro ciurgico). Enquanto o cara não vinha tentávamos uma transferência pra um hosp de maior porte. Todos lotados! Volto pro quarto do cara. Ele não tem filhos, só sobrinhos e uma das sobrinhas apavorada me diz: quando a mulher dele faleceu foi exatamente assim, ela sentiu uma falta de ar tão grande que nao deu tempo nem de chegar com ela ao hospital, ela morreu em meus braços, assim, de repente... Será que vai acontecer com ele também? E eu com mais medo...E dizia pra ela ser forte, pra ter fé, iríamos fazer de tudo pra ajudá-lo. Aí eu aumentava o O2 dele, tentava pegar pulso pra ver a saturacao e nada.... comeco uma compressao torácica numa tentativa insana de fazer o O2 dele chegar aos pulmoes e ao sangue; fazer com que ele não sofra tanto com aquela falta de ar...e ele melhora da frequencia respiratória. E eu e o único auxiliar de enfermagem humano naquele lugar tentando salvar o cara! Ele tentando achar uma veia, eu tentando melhorar a respiração pra não haver dano cerebral... Não tive mais forças físicas pra continuar. Saí, fui pro conforto médico, o auxiliar também deu um tempinho. Seu Carlos já nem sentia mais nada, nem dor. Mas a respiração dele tinha melhorado muito. Por isso consegui relaxar. Aí era só aguardar. O cirurgião chegou e o levou pro centro cirúrgico. Ele não resistiu. Os rins trancaram de uma forma que ele parou. Assim. rápido. Em questao de minutos. Quando volto do conforto encontro a sobrinha chorando, tremula. Pego água pra ela. Todos do hospital olhando com a maior cara de consolo....Não moveram uma palha pra ajudar o cara!!! Ok, me sentei ao lado dela, abracei-a, nunca sei o que dizer, mas disse apenas que o sofrimento dele foi pouco, que agora ele tava descansando. Ela me disse: obrigado Priscila. Por tudo. Eu sei que voce fez tudo o que estava a seu alcance. Não deu né? Sei que é assim. Um dia voces ganham, no outro perdem. Hoje você perdeu. Ela se levantou e foi embora. Eu fiquei meio mal mas tinha outros pacientes pra atender. Ao voltar no quarto uma acompanhante de outro paciente disse que desde de manha seu Carlos só falava no nome da esposa. Vai ver ela tava por perto pra buscálo... Tudo é tão efêmero. O cara tava ali, brincando comigo, dizendo que ao sair do hospital iria me dar uma fita do Senhor do Bonfim azul. Eu disse que ia esperar a fita. É só!




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